sexta-feira, maio 15, 2009

Sou um Rio

No passado fim de semana convidaram-me para palestrar sobre a canoagem e a minha relação pessoal com os rios num evento cultural em Mondim de Basto. Partilho convosco as minhas palavras. Por um Tãmega livre.


Rio
Eu sou um Rio
Sou uma catedral da água
Água
Sou uma igreja da gravidade
Fim das particulas
Gotas e areias

Rio
Eu sou uma viagem
Uma viagem onde haja um rio
Em lugar nenhum e em toda a parte
Sou um conhecer-te
Sou mil conversas com quem tamém és tu
Cá, ali, atrás daquele monte, naquela cordilheira
No Chile, na Suiça ou aqui mesmo Cabril

Rio
Sou um viver a cultura que encerras
As mil pessoas
Irmãs e desconhecidas que vivem e são como eu e como tu …. São um rio .
Sou uma comida de mil sabores
Sou uma festa
Sou uma noite a ouvir-te … incessantemente !

Rio
Eu sou um rio
Sou uma canoa
E sou levado na corrente, permanente, permanente

Sou hoje um regato, amanha um ribeiro, e depois um rio …
Sou um ser vivo
Um ser com personalidade própria
Independente na minha essência

Rio
Amigo e inimigo
Coverso contigo
Jogo contigo
Luto contigo
Muitas vezes em guerra contigo
Hematomas, arranhões, cieiro e Herpes e deslocações
Sempre vencido, sempre vencido

Rio
Eu sou um rio
Sou as primeiras chuvas de Outuno
Frias
Que me poêm as águas turvas
Sou os arcos alagados de uma ponte
Sou um céu carregado de negro
Sou um medo, uma angústia, um desconforto

Rio
Ontem também fui um rio
Fui as últimas águas da Primavera
Que me rebentam as nascentes
Que escorregam nas pedras limpas e quentes
E me poêm de cores brancas
No Maio
Sou a dança dos rápidos
Sou o verde dos salgueiros
Sou amarelo das Urzes

Rio
Eu sou as tuas rochas
Que te prendem e encalham
Sou os granitos do Rio Beça
Duros, lisos e lavados
Imensos
Sou mil piocas
Sou mil cascatas

Sou os Xistos do Rio Olo
Mais moles
E sou as tuas escadarias de àguas infinitas

Rio
Sou um rio desconhecido
Onde todos me vêm das margens
E onde poucos me percorrem as artérias

Sou o carro em contra-mão
Erratico e sistemático
Nas pontes
A cada instante
A olhar-te
Sempre, sempre, sempre ...

Rio
Sou as lágrimas das fugas e das perdas
Dos amores e ódios

Sou uma escola
Sou uma casa
Mil e um açudes

Sou o rio Tâmega, o Cabril, o Olo, o Louredo
Sou o Cabrão, Ribeira de Cavez de Fermil e Moimenta
Sou o Beça, sou Poio

Rio
Sou um Silêncio
Um silêncio na imensidão do teu ruido

Sou uma nota musical, uma pauta
Sou uma dança nas tuas àguas
Sou uma música

Rio
Eu sou um rio

8 comentários:

CarlosDiverkayaks disse...

O Rabiço non coñeciamos a tua vertente "artistica"jajaj.
Ogalla siga todo por Portugal sem tantos barragems coma pasa na Espanha e os rios segan sendo iso...RIOS!!
Linda coisa que escreveches.
Saudos
Carlos Sequeiros

Rui Canoas disse...

ja que estas numa de artista
«Quero ficar junto deste rio, pensou Siddhartha, é o mesmo que eu atravessei um dia, a caminho do povo de crianças; um barqueiro amável transportou-me nesse dia, irei para junto dele. O meu caminho afastou-me um dia da sua cabana, em direcção a uma vida nova que agora se tornou velha e morreu ----que o meu caminho actual, a minha nova vida , possa iniciar-se lá!
Olhou afectuosamente para a água, para o seu verde translúcido, para as linhas cristalinas dos seus contornos cheios de segredos. Viu pérolas cintilantes emergirem do fundo, bolhas de ar flutuando serenamente no espelho de água, refletindo o azul do céu. O rio olhava para ele com mil olhos, verdes,brancos,cristalinos,azuis celestes. Como ele amava esta água, como ela o fascinava,quão agradecido lhe estava! Ouvia a voz falar-lhe no seu coração, desperta outra vez, dizendo-lhe: Ama esta água! Fica junto dela! Aprende com ela! Sim ele queria aprender com ela, queria escutá-la. Parecia-lhe que quem compreendesse esta água segredos compreenderia muitas outras coisas, muitos segredos ,todos os segredos.
Mas hoje,dos segredos do rio ele via apenas um,um segredo que enchia a sua alma: aquela água corria continuamente, corria sempre mas estava sempre ali, para todo o sempre a mesma e, no entanto, a cada momento nova! Ah quem isto compreendesse! Ele não o compreendia, sentia apenas agitar-se um pressentimento, uma recordação distante , vozes divinas.»»
HERMANN HESSE «Siddartha»

Hallphe disse...

Lindo, este senhor é um poeta...

nothingman disse...

Obrigado Rui pela partilha.
Não deixa de ser um pouco o que se sente com o passar dos anos de canoista. Um apego, uma nostalgia por um lugar onde nunca estivemos e estamos ao mesmo tempo em prmanência. Quem compreender o segredo daquelas àguas compreende tudo.

Vou ler o livro.

Anónimo disse...

Desse quero 6 caixas...
nem me interessa saber se é da Adega Cooperativa de Mondim de Basto...
Esse inspira mesmo. Quero mesmo 6 caixas dele, eh eh eh!


Chapi

Anónimo disse...

Rio...

O que o rio nos mostra.
O que nós aprendemos com ele.
Momentos de alegria...

Grande textoo que esta' ai escrito!

Beijo
Mariana CNFAFEE

Cindy disse...

Sempre a surpreender-me...
Não tenho palavras para descrever o poema.
És um grande Poeta.
Jinhos
Cindy Dias

Jales de Oliveira disse...

Grande Rio, grande poema, grande Rabiço.Promete que o vais declamar no lançamento do meu livro"corre-me um rio no peito".Parabéns. Um grande abraço.

Luis Jales de Oliveira