segunda-feira, dezembro 15, 2014

AméricaNuMinuto - Um segunda garganta (28 Novembro 2014) 11º GC

Entre um acordar e outro, giro no Thermarest. O parceiro de tenda, bivacava ao luar. Por vezes a ordo com sonhos de "deboche feminino" ... uma chatisse não haver mulherio ... outras simplesmente pela explosão de água nos retornos do rápido mesmo acima do camp. As mãos continuam a acumular feridas, do ar seco, e de andarem sempre molhadas, infeccionam alternadamente, especialmente na minha vez de lavar a loiça. Mão consigo apertar as mãos, sangram os golpes, e parte de pele erudida nem precisam de estímulo para tal. As unhas agigantam-ee nos dedos, e a areia fina crava-ss no seu sub-solo. Bolas esta areia é mesmo fina, enfia-se em tudo que é material informático. Faz 10 dias que n m vejo ao espelho, e a barba encrava no pescoço.
Admiro os exploradores, os solitários, aqueles os quais, as jornadas passam do calendário das semanas, contadas em meses, anos. De que matéria serão eles feitos ? Estaram eles próximos e fundidos da fisica dos elementos e das leis que regem tudo o que é selvagem ? Se tir-se-iam sós ? Amoleceriam as suas almas com a solidão a viagem e a ausência dos seus ? 
Ao final deste tempo todo aproximo-me deste estado de matéria, sinto-me rocha e água. Capaz de ser transportado vale abaixo infinitamente. Estou pronto. Encaixo. Tudo não passa de uma a abstração da nossa raiz educacional. Repolarizei os terminais. Sintoe aclimatado.
No dia de ontem fizemos 20 milhas sem muita azáfama. A maior dificuldade logo a seguir ao pequeno almoço, "Upset" e depois coi contemplar, 300 metros verticais de garganta, talvez a mais profunda do vale, "... que beleza indescritivel ..." às vezes confortante, outras claustrofobica. A luz faz parte de todo este mundo, constroi sempre em cários graus, e torna a base deste mundo bi-tridimensional. O fenómeno das camadas de rocha que caminham a diferentes velocidades, eludidas pela distancia, nem explico. Os "young guns" (rapaziada mais nova) está com a moral em alta, arriscam linhas difíceis, afirmam-se sem imposição. O Calado, eternamente um jovem com a sua mente positiva, sorri a cada remada, faz parte da sub-espécie dos descobridores. O Benja vocifera ... "já são dias a mais", inqueito, ressaca de tabaco que terminou faz 2 dias. 
Forramos o estõmago com a emanta possivel, bolachas de água e sal, comida de pássaros, e restos de cerais do pequeno almoço, sempre com quantidades astronómica de queijo creme que a PRO achou que deviamos comer diariamente.
Em Havasu Creek (rio da água azul) pensei nos que a elas pertencem, experiêncio uma paragem mais espiritual e sinto falta do Barbosa e do Agustin.
Meia hora antes do camping carrego lenha para a fogueira noctuna. Hoje é a minha equipa que cozinha, arroz de chouriça, verdes e lombo de porco na brasa (espécie de fiambre grosso). O sal acabou faz 2 dias, improvisamos como podemos. 
Ao luar invento melodias na harmonica, o Ricardo escreve linhas para o blog da expedição, o Tiago massacra-nos com medleys de música pimba, e sonha que está no carnaval de Ovar de pandeiro na mão. Quebro o gelo do Marco, está agora mais tranquilo após alguns dias tenso. Via "satellite phone" recebemos notícias do país, "faleceu a duquesa e o Socrates foi preso", seurpreende-nos a primeira.
Nas noites a lua cresce de dia para dia, dá vontade de dormir com ela. Escorrego no colchão, bebo água quente para aconchegar o estõmago, e adormeço à espera das ditas "ninfas". Acordo com fome e escrevo sobre a vida. 

 Ao som de Keith Jarret - Koln Concert - Part I

AméricaNuMinuto - A Carta (27 Novembro 2014) 10º GC

My Dear

Se eu te pudesse mostrar, se te pudesse transportar. Se os meus olhos fossem como um caleidoscópio ... Se tudo aquilo que passei e passo pudesse ser transcrito ... Talvez veria um sorriso gigante, lábios que rasgam a face sem medo de mostrar interiores ... Verias um rio fundo, bem fundo, cruza o mundo deserto, camadas de rochas suaves cortadas à faca, e a cada curva uma nova pintura. O sol está sempre a esconder-se e a mostrar-se, texturiza infinitamente as rochas altas ... Verias que o prazer da expedição facilmente se transforma em sofrimento, por estarmos com os nossos e estarmos sem eles ... Pelos nossos medos endurecidos e pãnicos alternados, pelas roupas que custam a secar, pelos ossos que rangem ao dormir, ao 10º dia cada pagaiada é um movimento automático, "push, push push" ... Banho é um privilégio que n tenho, constipação, águas frias e alguma perguiça empurram-no do meu corpo. À noite o jantar entra apenas parcialmente, suo das mãos. Guardo calorias restantes junto a mim na tenda, e com o acordar de noite para aliviar as dores de pressão, dou uma garfada e obrigo-me a comer.
Apesarde tudo flutuo com o sentimento que n trocaria esta jornada por qualquer tipo de felicidade instantanea, e a cada manha, com os primeiros raios de luz faço-me ao rio e contemplo. Todo este cenário apaga as dores de sentir, fico contigo e ouço-te "contempla".
Fazes falta ...


Ao som de "It is for you" - Pat Metheny

AméricaNuMinuto - Sol Granito e Beijos em Universitárias (26 Novembro 2014) 9º GC

Antes das histórias do rio um apontamento: como pode o ser humano ser tão profundo e elementarmente carnal em tão curto espaço de tempo. Um dia após estabelecer contacto com amores no continente europeu via correio, e sublinho, um contacto sinsero denso e profundo, dou de caras com bonitas estudantes universitárias americanas que caminhavam entre North e South Rim. "Mas o que é isto ???? Deveria ter escrito mais postais ... Será que elas apareceriam em mais quantidade para destabilizar as minhas pagaiadas ? " Enquanto fotografavamos, analizavamos e decidiamos o que fazer com o Granite (uma das muitas dificuldades do ri, naquele que era o mais forte dia de águas bravas de toda a expedição do Grand) ocorreu-me que poderia "sacar" uns beijos de língua daquelas moças rijas em apenas 3 minutos de conversa. Esqueçe tudo o que disseste nos postais, aliás, lembra-te ... não há qualquer incongruência entre verter afectos em correspondência, e querer fazer evaporar de forma simplista desejos mais carnais, havia sempre a desculpa que eram hormonas diferentes que controlavam estes 2 processos, e elas nestes dias pareciam estar de certa forma de costas voltadas. Se efectivei as intenções de me enroscar superficialmente com as jovens americanas, são memórias que entretanto me foram sendo roubadas pelo belo dia de sol que acontecia, e esses acontecimentos ficaram perdidos temporalmente no Grand.
Certo foi, que o dia que era o mais difícil da jornada, com 4 rápidos classe 8 e 3 rápidos classe 7 (os rápidos do Grand são definidos de 1 a 10 onde 1 é um "easy" classe III e 9 um "consistent" classe v) acabou por se tornar um festival de bons feelings, estava sol, e as vibrações da audiência do primeiro rápido do dia arrastaram-se até ao acampamento. Deu ainda tempo para resgatar o Seth que engatou mal uma linha no House Rock, e depois de um banho prongado agrafou a minha corda quando ainda era puxado eddy acima. "thanks Jorge" respondi-lhe " you should have kissed the college girls, it gave us luck" ...
Se bem me lembro era o dia de Acção de Graças, o dia mais familiar e de proximidade para os américas. E houve peru, molhanga, esparregados e cenas endecifraveis que sabiam bem  ... comemos chocolate que alegra o coração ... a noite excepcionalmente estrelada e a lua que crescia de dia para dia eluminaram a encosta frente a frente com o camp, adormeci com a sensação que estavamos a ser guardados por pessoas em forma de cactos ... talvez tivesse bebido muito Chadonnay ... Tinha dado a volta ao mundo num só dia e estava pronto para mais uma assim que os cactos que nos vigiavam fossem dormir !!!!


Ao som de Anywhere I lay my head - Tom Waits

AméricaNuMinuto - Phantom Ranch (25 Novembro 2014) 8º GC

O xisto tinha um encanto especial. Como era negro, no nascer e no por do sol a luz enfatizava ainda mais os mosaicos entre as faces que se viravam ao sol e as que se escondiam dele. Nesta secção, todos os rápidos eram de portagem impossivel, nada do outro mundo, mas a tensão cheirava-se.
Ao final do dia ultrapassariamos Horn Creek Rapid, que deu um banho e uma canoa agrafada num contracorrente dantesco. Felizmente para o calado n houve consequências, apenas sorrisos e algumas chacotas.
A meio do dia tinhamos recarragado forças no único contacto que tivemos com a civilização (ou o mais proximo dela). N que quisessemos esse contacto a todo o custo mas falava-se que de lá era possivel o envio de postais. Existe um trilho mais ou menos a meio dos 300 km de Canyon entre a o planalto norte ( north rim) e o panalto sul (south rim) este trilho cruza o rio numa ponte pedonal (a única em 300 km), e passa numa conjunto de casas de madeira com camping, bar, posto dos rangers, com alguma simples criação de gado. Phanton Ranch. Desde os primórdios da exploração do Grand, rancheiros estabeleceram-se aqui para fazerem as suas vidas prosperar dos aventureiros que desciam o rio e dos aue cruzavam as montanhas a pé ou de mula. Sim, tudo o que ache chegava era carragado durante 2 dias por mulas. Inclusive o lixo que partia. Não resisti a captar o momento de ver a equipa a escrever postais direction portugal, e a comprar snickers que tinham viajado nos lombos de equinos. Quando temos saudades de alguém tanto os actos como os sentimentos ficam exacerbados. E algo me arrastou para ir mais longe nas palavras que verti no correio. Quando palavras e semantica não chegam para exprimir o que sentimos por pessoas, esperamos que elas viagem através da tinta e retrocedam o postal para o momento e exacto em que escrevemos "Amo-vos muito", pois esse estado fisicamente é uma dimensão não mensuravel, que só podia ser sentida por muito naquela mesa e pelos seus lá longe.
E as mulas lá carregaram o peso infinito do sentimento. Nós estavamos de regresso à nossa condição. Cruzadores de nós próprios.
Ao som de Temptation - New Order

sexta-feira, dezembro 12, 2014

AméricaNuMinuto - Com o Vishnu Chist vem o medo (24 Novembro 2014) 7º GC

Ao final do sexto dia de expedição entramos finalmente na secção onde o Colorado crava as suas águas na rocha mãe, dos primórdios da formação da terra. Um xisto muito negro, quartezito e uma espécie de granito misturam-se caoticamente e dão ao Canyon um aspecto cerrado, escuro, encaixado e estreito, e a cada rápido uma dificuldade maior.

Abordamos ainda com o sol de frente "Hance", até agora porção mais "chalenging" do rio. 200 metros de extensão, 10 metros de pendente, o rio precipita-e numa sequência de ondas e buracos de àgua desencontrados, em alguns deles imagino que será uma viagem sem retorno, ou um banho longo, longo. Sento o meu rabo na minha pequena embarcação e o pulso acelarado, acelera ainda mais. Precipito-me rápido abaixo e luto, "bolas de fora parecia mais pequeno e fácil", upss, agarro num buraco, luto, ponho os olhos no final do rápido, cruzo duas ondas quebradas gigantes e estou no contra. Ali fico 10 minutos a recuperar o folego e a beber líquidos. Aproveito e faço filmes dos restantes elementos Tugas, todos passam com sucesso. O Duarte tem na abertura das hostilidades um encontro imediato com um enorme retorno. Este episódio mudaria a sua abordagem em relação ao rio. Passava de um "agressive kayaker" para um "conservative rafter". 
A sequência de rápidos de paragem e observação obrigatória, consome-nos tempo, deixa-nos sem almoço e obriga-nos a refugiar-nos numa pequena praia antes do estipulado, 16 pm já ao cair da noite.
Naquela noite fui incapaz de comer o que quer que fosse. O meu estomago estava demasiado empedernido com o stress da jornada. Coloquei o jantar em pequenas sacos, enchi uma termica de chá e enfie-me na tenda eram 20.30. "Estou carregar uma pequena  faringite" ... enfio um anti-inflamatório. Pela segunda noite seguida sonho eroticamente com belas mulheres nuas e acordo vezes sem conta para conferir se por um acaso qualquer não estarão ao meu lado na tenda. Nada. Rolo o corpo, ponho um pedaço de jantar na boca e tento voltar para a volupia dos sonhos.

Ao som de This Mortal Coil - Fyt