sexta-feira, dezembro 12, 2014

AméricaNuMinuto - The Roaring Twenties (21 Novembro 2014) 3º GC

Escrevo no meio do Atlântico. Nem sempre foi fácil durante a flutuação encontrar o tempo certo e a onda apropriada para fundir a minha linguagem com a paisagem. Apesar de tudo, tão pouco é mais fácil na viagem de regresso à Europa encarnar o espirito diário vivido entre aquelas duas paredes. Mando duas garrafinhas de "Vinhas del Duero" goela abaixo, fecho os olhos o busco o tele-transporte.
Na manha daquele segundo dia descida, acordamos entalados. Tinhamos escolhido um camping pequeno emparedado. Mal era manhã e experimentava a luz a reflectir nas primeiras camadas do planalto, ainda surpreso, o sol adquiria ali uma alma própria distinta daquela que conhecia, as camadas laranjas e amareladas incentivavam-no a ser ainda mais sol, perdia-se e encontravasse nos múltiplos reflexos que o encaminhavam até nós ... (ainda hoje procuro descrever esse sentimento mas em vão) 
Naquele dia houve um sentimento de estarmos no nosso habitat. Os chamados "Roaring Twenties" ofereciam ums serie de rápidos nem muito fáceis nem muito dificeis, quanto bastasse para dar conforto à equipa. Coreografamos, ora uns ora outros à frente, com sorrisos de espanto, enebriados com o efeito surpresa de cada curva.
Os rafts vinham sempre ao sabor da corrente (6 a 7 km/hora), de nada adiantava carregar nos remos. Cada raft pesava 600 kg. Com o condutor ao centro, sentava-se em cima de um "frigo" uma espécie de arca frigorifica, obviamente sem ligação de electricidade, meia de gelo, para aguentar os 14 dias. As arcas transportavam verdes, lácteos, congelados de carne, etc. À frente e a traz do "rower" uma caixa metálica, com cargas diversas, transportavam mesas e material de cozinha, gaz propano, cerveja, muita cerveja, enlatados. Havia um barco com caixas matálicas, para dejectos humanos. Lado direito e esquerdo da parte central dos barcos, caixas estanques, transportavam pão, cereais, snacks, doces. Havia depois utilitários, papel higiénico, pequenos sacos estanques, para o que fosse preciso, etc e tal. Cada um tinha direito a uma pequena caixa estanque para transportar pertences e comidas de rápido acesso. Havia um kit de reparação de barcos, uma caixa com condimentos de cozinha, 4 estojos de primeiros socorros, e uma placa metálica para fazer fogueira sem deixar rasto. Os barcos transportavam ainda todo o nosso material seco, tendas, cadeiras de campismo, material electrónico, etc e tal.
Ao terceiro dia a máquina de distribuição de tarefas ainda rangia e procurava ser oleada. Havia 3 equipas de cozinha de 4 elementos cada, cozinham e lavavam à vez, havia uma equipa de 2 elementos para a secção da água, desinfectavam água, preparavam água para a cozinha, depois havia a equipa da "toillet", também uma dupla, montavam e desmontavam a casa de banho de campanha. Na chegada às praias todos ajudavam a descarregar o material e de manha na saida ao carregar igual ritual.
Estipulamos remar 30 km diários (20 milhas), 5 horas na água, com uma pequena interrupção para um almoço volante. Se desse tempo durante essa paragem caminhavamos em perpendicular, na descoberta de "side canyons". 
É claro que nem tudo correu dentro do planeado, esta era uma viagem nova para todos, adapações, cedências e aldrabices teriam que ser feitas …

Ao som de Bjork and Massive Attack - New World

quarta-feira, dezembro 10, 2014

AméricaNuMinuto - 30 minutos didáticos e um caos primario na cozinha (20 de Novembro 2014) 2º GC

AméricaNuMinuto - 30 minutos didáticos e um caos primario na cozinha


Acampar mesmo no topo do planalto foi uma experiência fria. Noite dentro fizeram provavelmente uns 10 graus negativos. Tremi dentro do meu saco de cama e e revesti-me uma série de vezes à procura de conforto. A noite tinha-me posto à prova com o frio, a manha ofereceu-me um nascer do sol arrebatador nas  Vermillion Clifs (o ponto mais alto do planalto primário do Gand. Naquela manha fizemos um breifing com  Ranger do parque (uma sessentona simpática com raizes indias). Depois de checar o material de segurança todo, deu-nos algumas informações e regras para a odisseia. O parque é visitado por 5 milhoes de pessoas por ano, e o Rio Colorado é descido por 30000 por ano em raft motorizado, raf a remo e kayak. Como corre num vale extremamente seco, onde a chuva é rara, qualquer agressão humana tende a perpetuar-se até a natureza repor o original. Corvos, condores, ratos, cascaveis, escorpiões, gatos selvagens, veados, todos estes animais pertenciam ao vale, alguns já habituados à presença humana, teriamos que saber que estariam a nosso lado nos acampamentos, como protegê-los e como nos proteger. Falou-nos um pouco de segurança, da única forma de comunicarmos com o exterior (telefone satélite), e do nosso melhor amigo no Grand o colete
salva-vidas.
Abrimos cerveja, gritamos Grand Canyon - Siga ca#^^{!ho e flutuamos vale abaixo. 
4 rafts e 12 kayaks. Uma equipa multinacional. O Giovani, avolta dos trinta a trabalhar para a Booking.com na Holanda, um italiano que tinha feito erasmus um par de anos atraz em Portugal, conheceu na altura a comunidade das águas bravas e a empatia foi mutua, fez amigos portugueses para a vida. Carbonell, que nos conheceu nas suas viagens em Portugal para remar, e que muita vezes se cruzava connosco nos Pirineus, tem uma empresa de actividades outdoor nas montanhas à volta de Alicante. Os 2 norte-americanos, o Taylor, que é responsavel pela secção outdoor da universidade de Clemson, Carolina do Sul (guiava um raft) e que tinha 2 filhos encantadores; e havia ainda o Seth, talvez o mais reservado dos seres da turma, responsavel pelos programas outdoor da cidade de Raleigh. A representar a turma portuguesa tinhamos, o Duarte (já largamente apresentado), Octávio Canhão, gerente de uma empresa de rafting em Portugal e promotor de eventos (guiaria outro raft); Rui Calado, que reuniu toda a equipa e que se candidatou ao concurso por vagas não comerciais para descer o Grand, um espécie de pai de todos os jovens canoistas actuais, largamente experimentado, perto dos 50, escreveu o guia Portugal Kayak, e orienta uma loja de material de águas bravas em Aveiro; Ivan, brasileiro de origens colombianas, que veio para portugal trabalhar como dentista, mas que já trazia algumas "skills" de canoista do Brazil; Matinhas, engenheiro civil de profissão, habituado a obras em países de risco, nascido e criado em Nespreira, um vale lateral ao paiva onde deu as primeiras pagaiadas; Marco, funcionário da Refer, promotor da "filosofia" Curte a Vida, que iniciou a sua experiência no kayak mar; Inverno, presidente do Clube de Canoagem e Águas Bravas de Portugal, engenheiro que partinha o sei tempo entre a família e o activismo no clube e o lazer no kayak; Benjamim, engenheiro civíl, com 20 anos de experiencia de canoita, mulher e 2 filhos, um "tio" dentro da comunidade kayaker em Portugal; Tiago, bem humorado condutor de camionet, natural de Pedorido, Castelo de Paiva, e o mais novo do grupo, pelos 24 anos; Bica, rapaz de pequeno porte e remada sólida, faz frabalhos verticais e de tmperamento calmo; Daniel, engenheiro aveirense, da turma do CCABP; e eu, Jorge Rabiço, sempre impelido para o desconhecido por uma força que me descola do comforto confirmado, e me atira para a provação diária.
Em 14 dias, e após 270 km, esperamos sair sãos, um pouco mais velhos e com a nossa união reforçado. Estavamos por nossa conta.

Ao som de Thirty-three - Smashing Pumpkins

AméricaNuMinuto - Bem vindo á casa das paredes laranjas (19 de Novembro 2014) 1ºGC

Para tornar a expedição mais fácil, mesmo na parte logística, o Rui Calado, contratou uma empresa local, que nos providenciou, rafts completamente equipados com todo o o tipo comodidades campísticas. Cozinha de campismo, comida para 14 dias, primeiros socorros, filtro e purificador de àgua, "cagadeira" especial, para não deixarmos nada no ecossistema frágil do Canyon. Adicionalmente tendas, cadeiras de campanha, sacos cama colconhetes, roupa extra entre outros seria adicionado por nós à restante tralha dos barcos. Teriamos que ficar autónomos durante 14 dias, apenas um gps nos ligaria à civilização. Tivemos um pequeno briefing matinal e partimos 2 horas de estrada em direcção a Norte.

Cruzamos terras de índios Navajos, uma nação dentro de um estado, com as suas proprias leis. Fiquei sem saber se eram "ancestralmente" da região ou se tinham sido forçados a deslocarem-se. O que é certo é que, como n tinham gandes direitos sobre a água do Colorado, n podiam ter grande regadio, e com uma agricultura practicamente inesistente, viviam pobres, do que vendiam a turistas, incluido taxas por atravassar as suas terras.
A nossa aproximação ao Grand foi de cortar a respiração. À medida que rumavamos para sul, esbarramo-nos com uma parede imponente da margem Noroeste do Colorado, a primeira banda a ser rasgada neste rio, Vermillion Clifs. Senti que estava a chegar a um mundo aparte, onde tudo o que julguei ser grande em termos do que já tinha remado, se resumia a coisas vulgares. O Canyon no final da tarde começa o seu mecanismo de atração e dominancia. O por do sol acentuava o vermelho da rocha. Eu começo a perceber que seria importante um pouco de geologia na minha sacola, teria 14 dias de aulas dadas pelo vale, estrato após estrato após estracto. 
A equipa cruzou a antiga ponte dos Navajos, possou para a fotografia, e soube pela primeira vez o que iria ser acampar 14 dias. Acentamos arraiais na entrada do rio um spot chamado Lees Ferry e tive muito frio de noite. O vento. Estavam -5 graus. O colchonete do colega de tenda deu sinais de estragos na primeira noite em camping…
Mas o Calado é a pessoa mais positiva que conheço e acordou como se nada fosse, estava no seu habitat natural…

Ao som de Tomorrow Never Knows - The Beatles

AméricaNuMinuto - Aclimatações e provas de cerveja ! (18 Novembro 2014)

O hotel em Flagstaff, era coisa pequena. 2 andares. Quartos com ligação directa para o estacionamento. Ficamos 4 por quarto. De manha tinhamos direito a pequenos almoço à americana. O malta que voou por Pheonix, tinha madrugado, causa do jetlag, e reunimo-nos todos pela primeira vez, bacon, ovos, panquecas, waffles, aveias várias, e aqueles cafés bem brandinhos. Típicos.

De manha fizemos compras de última hora, o Benja aproveitou e comprou um fato seco, sempre melhor que os impermeaveis saca plástica. No grande n convinha fraquejar, 14 dias de águas frias. Durante a tarde comprei Jon Krakeuer. No ano anterior no Nepal tinha lido "Into thin air" de uma penada. Estava curioso com a história dos Mormons que ele tinha escrito.
Estes dois dias em Flagstaff serviram para a equipa se intrusar. Distrubuimos kayaks, e contamos aquelas histórias à portuguesa, só para nos rirmos uns dos, e com os outros. O Taylor responsavel pela secção de outdoor da faculdade de Clemson tinha tido a cortesia de nos facultar embarcações. Fizemos uma reunião para falarmos um pouco de partilha de responsabilidades. Uns orientavam a expedição campings, e rápidos, outros primeiros socorros, outros havia que nos introduziam à necessidade de manter este local sem rasto da passagem de humanos, selvagem. A equipa respondeu bem, atenta,  sem grande granel, respeitaram as hierarquias.
Tempo de jantarmos numa especialidade local, uma cervejarias com 4 tipos de cerveja caseira, que acompanhava bem com ... hamburgeres e bifes à moda do Texas.
Apressei-me para o hotel, em altitude no deserto corre um vento seco, e após o sol se pôr, as temperaturas baixam bem abaixo de zero.
Embrulho-me no meu saco de cama e entre publicações apressadas de fotografias, chamadas via skipe para os meus, adormeço de novo bem cedo.
Repetiam-se os dias em Flagstaff, queria arrastar-me dali pra fora e enfiar-me no Canyon.

Ao son de Children of the Sun - Dead Can Dance

quinta-feira, dezembro 04, 2014

AméricaNuMinuto - Slow down desert (17 Novembro 2014)

Pela segunda noite encolhia-me no banco de trás da V6 do Taylor. O ar seco e frio do Novo México tornavam a sofagem incuerente. No máximo dáva-me conforto e queimava o que se sentavam nos bancos da frente. Tudo que fosse abaixo disso fazia-me sonhar com banhos de água gelada, e por isso a negociação foi sempre difícil. Naquela noite poupamos as articulações e o cérebro enxarcado de café e ficamos hospedados com 6 horas de sono num pequeno hotel de estrada, lado a lado com a mítica 66.
Sem conseguir fugir à panaquecas ao wafles e aos ovos (o que é potencialmente nocivo para a acumulação interior de ar), voltamos a subir para o planalto das rochosas,e entramos em terra de índios. O estado do Arizona é amplamente povoado por reservas indias. A maioria delas locais de raizes ancestrais, outras (desconhecia eu) e provavelmente a maioria, depois de dizimadas pelos colonos, foram forçadas a abandonar as suas terras ferteis no centro e este dos EUA, e obrigados a caminhar durante meses em direcção a oeste onde lhes deram vastas estensões de deserto de altitude e terras de agricultura impraticavel. Havia há 400 anos milhões de índios no pais, hoje estão confinados a pequenas reservas, a maioria deslocados, e vivem da venda de souvenirs, vendem fotografias lado a lado com os chefes indios. Houve tribos que se recusaram a esta imposição, caso dos moicanos e dos cherokees, q se aguentaram até à última gota de sangue nas Apalaches.
Depois desta aula da "people history of américa' pelo Morais, visitamos uma área conhecida pela sua floresta petrificada. Muitas eras atrás arvores foram sendo arrastadas por um rio existente. Devido a um processo de pressão e depósito de sedimentos o que era matéria organica transformou-se em matéria mineral formando "pedra".
O planalto do Arizona é especialmente rico geologicamente pois durante milhões de anos modou a sua configuração de região montanhosa, oceano, lago, pantano etc, devido às variações das placas tectónicas. Hoje o rio colorado faz o papel de paleogeologo e cortou todas estas camadas na vertical mostrando a idade da terra.
Chegados a Flagstaff, instalamos o material no hotel e demos um giro pela cidade. Funciona como cidade apoio do Parque Nacional do Gand Canyon o que lhe dá um charme particular. Pululam grupos de "expedicioniers" misturados com juventude uiversitária. No centro da cidade passa uma linha de caminho de ferro que liga a costa oeste ao centro do pais. Meia em meia hora composições de 2 km, 150 carruagens cada uma com 2 contentores, cruzam lentamente o planalto. "It's China invading América" diz o Taylor no seu sotaque sulista.
Ao por do sol refugiei-me no meu saco de cama a fazer publicações e a partilhar as novidades. O Calado e o Duartetinham ido já ali a Pheonix agrafar o resto da equipa que chegavam de Itália de Espanha e de Portugal. Pheonix à escala americana era já ali, a três horas de Flagstaff.
Adormeci e apercebi-me que tinha bebido 3 litros de água numa tarde, a minha pele descascava instantaneamente, o nariz e a garganta, secaram durante a noite, estava provavelmente a experimentar o ar mais seco que algum dia respirava. No planalto se o do Arizona acima dos 2000 metros, a humidade era quase 0. E a chuva raramente mostrava a sua cara. Teria 2 dias para me adaptar.
Ao som de High and Dry - Radiohead